Enquanto a chuva molha meu rosto, ela esconde a minha lágrima que insiste em encontrar o chão. Enquanto o frio toma meu corpo, eu aprendi sem a gramática, que saudade não tem tradução. Eu preciso tanto de você, o seu amor é o que me faz crescer e conhece como a própria mão, cada medo do meu coração. Hoje pensei tanto em nós dois que não podia deixar pra depois, e eu vim aqui só pra dizer que eu sou louco por você…
Lembro de nós dois sorrindo na escada aqui. Estava tudo tão bem e de repente acabou. Vozes no portão, passos no saguão, poderia ser você, mas faz tempo que partiu. Deixou algo aqui e pouco a pouco encontro seus sinais. Menos de um segundo e eu já perco o ar, quase um minuto, quero te encontrar. É um sentimento que preciso controlar porque você se foi, não está aqui. Tudo o que ficou mexe com meu interior. Isso afeta meus sentidos, foi o seu cheiro que sumiu. Tudo acabou. Interrompeu-se tudo o que existiu. […] Partiu num dia qualquer, sem ao menos dizer adeus e o que ficou foi um coração que sofre como quem espera a próxima entrada da estação. E o que separa o frio do calor é a emoção de saber que vou poder te encontrar um dia. Eternamente te encontrar…
Parece estranho, sinto o mundo girando ao contrário. Foi o amor que fugiu da sua casa e tudo se perdeu no tempo. É triste e real, eu vejo gente se enfrentando por um prato de comida. Água é saliva, êxtase é alívio, traz o fim dos dias. E enquanto muitos dormem, outros se contorcem, é o frio que segue o rumo e com ele a sua sorte. Você não viu? Quantas vezes já te alertaram que a Terra vai sair de cartaz e com ela, todos que atuaram. E nada muda, é sempre tão igual, a vida segue a sina. Mães enterram filhos, filhos perdem amigos, amigos matam primos, jogam os corpos nas margens dos rios contaminados por gigantes barcos. Aquilo no retrato é sangue ou óleo negro? Aqui jaz um coração que bateu a sua porta às sete da manhã. Tá querendo sua atenção, pedindo a esmola de um simples amanhã. Faz uma criança, plante uma semente, escreva um livro e que ele ensine algo de bom. A vida é mais que um mero poema, ela é real. É pão e circo, veja a cada dose destilada, um acidente que alcooliza o ambiente, estraga qualquer face limpa. De balada em balada vale tudo e as meninas das barrigas tiram filhos, calam seus meninos, selam seus destinos. São apenas mais duas histórias destruídas, há tantas cores vivas caçando outras peles, movimentando a grife. Agora a moda é o humilhado engraxando o seu sapato, em qualquer caso é apenas mais um chato. Aqui jaz um coração… E ainda que a velha mania de sair pela tangente, saia pela culatra. O que se faz aqui ainda se paga aqui. Deus deu mais que ar, coração e lar. Deu livre arbítrio e o que você faz? O que você faz?
Palavras perdidas como um livro vazio. Promessas de paz quando há crianças no frio. O medo e a dor certamente virão, como as folhas que o vento um dia então levará. Para morrerem depois espalhadas no chão, ou como um grito que em vão vai se perdendo no ar. Hoje sinto a sua falta. Logo eu, quem diria? Mas fugia em vão sem ter nada a buscar, mergulhava no escuro para tentar escapar. Pensamentos se apóiam em toda sua razão. Onde estão as batidas do seu coração? Ouço gritos no corredor, as pessoas chorando pra acalmar a dor, mesmo olhando de perto às vezes finjo não ver. Se o céu está cinza é por falta de amor, o vazio existe e não tem rosto nem cor, mesmo olhando de frente não consigo entender. E não há porque morrer um pouco por dia, deixar perder o sorriso em meio a tanta agonia. A vida insiste em lhe estender a sua mão, te carregar sobre os ombros, levantar-te do chão. Faz sumir sua dor e toda sua aflição, já posso ouvir as batidas do seu coração…